sexta-feira, 11 de julho de 2014

NÃO ERA DE VIDRO AQUELE OLHAR

NÃO ERA DE VIDRO AQUELE OLHAR.
conto fictício.
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    A prostituta, as pressas, rebola pela esma rua,,, o ébrio gigolô a chama,
 e enciumado a segue desvergonhado; cobra-lhe postura, toma-lhe algum trocado e com voz cheia de misteriosa ternura ela o abraça e o chama de meu amor, tascando-lhe nos lábios sumosos um beijo demorado.
   Ele se move lentamente e senta na calçada e ela segue graciosamente a procura de outros pares que desejem suas delícias, até o limite inatingível para seu desejo de meretriz .
    E retorna sem as parcas moedas.
   O trôpego gigolô beija a moribunda, que lhe retira do bolso um cigarro amassado. Bafora-o deliciosa e apressadamente, rompe o adiante, à caça de
de algum freguês mais distraído., exibindo o rebolado provocante
     Observei-o atentamente em busca de um sinal qualquer que pudesse identificá-lo, que enfiado num velho casaco de casimira e calças enxovalhadas, pedia trocados aos minguados transeuntes que desciam do velho ônibus, na rua principal.
    Quem seria aquele, em petição de miséria, que eu tentava, sem sucesso, identificar?!  Aproximei-me com cautela, entregando-lhe algumas moedas. Olhou-me com olhos de cão faminto, cara de túmulo abandonado, talvez na intenção de também me reconhecer! Mas os janeiros se foram em minhas léguas de ausência e meus cabelos rarearam! Meu olhar já não é tão atento, e rouca é minha voz; mais pausada e cuidadosa, de décadas vividas distante de minha terra natal.
      Não queria despertar a desconfiança daquele, em quem eu notara sinais de alguém que conhecera há décadas, oriundo de família poderosa, e que, em seus ímpetos de play boy, embuido de maldades, pra não dizer outros adjetivos, deitava e rolava com as mocinhas das cercanias e adjacências; não quisera estudar, como seus demais irmãos,se enfiando em drogas, alcoolismo e boemia, até que certa vez, numa briga num prostíbulo, alguém lhe vazara o olho direito, forçando-o ao implante de um olho de vidro; caríssimo para a época.
       Rico, poderoso e inconsequente, desfilava pelas ruas poentas a exibir sobre carros luxuosos a riqueza de seu pai, e por Rico era conhecido, seu verdadeiro nome.
        Briguento, vivia enturmado a outros tão iguais, tirando a tranqüilidade das pessoas do bem.
        Junto a ele sentei-me na calçada arguindo-lhe a memória, disfarçada nas
respostas mal balbuciadas de seus murchos lábios finos, impregnado de uma gosma branca, isso para me certificar se seria realmente aquele ser, o jovem “Rico” que eu conhecera há décadas, e que não por acaso, estaria sobrevivendo dos serviços de uma pobre prostituta e parcas moedas, saciando-se nos botecos. Então, subtilmente e aos poucos, consegui arrancar-lhe curtas respostas, sem ainda a certeza de sua identidade, mas quando lhe chamei pelo nome (“Rico”), ele finalmente volveu-me o olhar, fitando-me nos olhos, e algumas lágrimas caíram de seu olho esquerdo, tão límpidas e tão formosas, banhando-lhe a face triste e arrependida... encardida de pecados.

egê- SP
do livro poeira e flor vol III

         

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