domingo, 25 de agosto de 2013

FAZENDA MATO VIRGEM

FAZENDA MATO VIRGEM
homenagem a minha saudosa mamãe ANA

Sinta comigo as minhas lembranças:
Ali está a velha casa em que morei,
Quando criança, eu ainda me lembro
Por seu quintal eu tanto brinquei!...

Suas grandes portas de aroeira feitas,
Rangiam ao abrir quebrando sossegos
Das madrugadas insossas em que papai,
Voltando pra casa com seus desapegos.

Ao entulho, hoje ali estão  jogadas
Em seu silencio guardando segredos
Das tantas coisas agora enterradas;
Sonhos, ansiedades e os nossos medos.

A janela grande já não mais existe,
Em que mamãe tão triste ali esperava
Pelo papai voltando de suas aventuras,
Comprando boiada e nunca chegava.

Nem mesmo a cal branca que brilhava
sobre o reboco, dos beirais até o chão,
entristecida com os anos, amarelada...
de heras coberta...rastros de solidão.

O “Corguinho”claro que corria alegre,
por tabuas e lajeados, não existe mais!...
rodas d’água, de bambu, ali construídas,
Eram meus brinquedos sobre os pedregais.

Do doirado milho das lavouras grandes
E o feijão que meus irmãos plantaram
Nas tulhas velhas não existe um grão...
Só doces lembranças por aqui ficaram.

Um pouco acima desta tapera  grande,
Um enorme curral de cedro ali existia...
Papai aos gritos contando a boiada,
Ao chegar de longe no aclarar do dia.

Os mangueirais dos mais doces frutos,
Ao lado do paiol, já foram esquecidos...
Ninguém mais trepou nos longos galhos,
Hoje secos, sem frutos e já derruídos.

Da grande porteira de tantas passagens,
Escancarada quando alguém chegava...
Só restam agora dois mourões roídos,
Cedros gigantes que papai cortava.

Por onde existiam as lavouras grandes,
De milho doirado de arroz e de feijão,
Agora  existem mil bois pastando
Capim dourado, “anapiê” e colonião.

Em lugar deste largo e verde espaço,
Um terreiro grande batido, de chão,
Papai o fez para as grandes fogueiras...
Santo antõnio, São Pedro e São João.

Doce de batata, canjica e pé-de-moleque,
 Velha sanfona debulhando no terreiro...
Dança de quadrilha e chapéu de palha...
Roupas de remendos, viola e pandeiro.

Profunda cisterna de pura água doce,
De entulho, hoje está cheia até a boca,
Papai a fez porque no Corguinho alegre,
Foi desaparecendo sua água pouca

A lenha grossa no fogão de lenha,
Feito de barro quase rente ao chão,
Mamãe, bem cedo, coando o café,
No trinar dos lábios uma doce canção.

Depois?!
-Papai e mamãe se envelheceram,
Os filhos todos eles se dispersaram,
Alguns em busca de seus  destinos,
Os demais se foram porque se casaram.

Ainda ouço o velho carroção gemendo
Naquela curva lá no alto do espigão,
Quanto sorriso nos lábios da mamãe,
O arrozal cacheando no baixadão.

De tudo o que me resta é a saudade;
Pequenino, brincando com os demais.
Menino feio, pés descalços, atoleimado,
Sem camisa, deixando rastros nos areiais.

Papai se foi com seus rascantes gritos,
Tão logo minha dócil mamãe   partiu,
Lembro-me bem, sua voz uma canção...
Canções tão doces mas papai nunca ouviu.

Uma homenagem a minha mamãe de dezoito filhos.
Quinze ainda estão vivos. Falecida em 1978.
Do livro poeira e flor. Vol . II






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: Se você não é nosso(a) seguidor(a) e deseja deixar uma mensagem, escolha abaixo "Comentar como ANONIMO" e clique em PUBLICAR.

Escreva seu comentário abaixo: