quarta-feira, 27 de março de 2013

CONTO CIGANO


CONTOS CIGANOS

-Mamãe, mamãe!  Cigano , mamãe, cigano!
-Qui foi meu fio?
- Os cigano, mamãe! Os cigano viéro! Tô cum medo...tô cum...
-Si iscondi puraí,  qui vou chamá seu pai.
-É um montão de home tudo isquisito e tão tudo despois da cancela, bem pertim do corgo.
Assim era o meu medo. Medo que minha avó me ensinou, dizendo que eles roubavam criança
pra saciar suas fomes . Dizia ela que enquanto as ciganas liam as nossas mãos, faziam algo para nos enfeitiçar e então... se aproximava um cigano enorme, nos jogava na garupa de seucavalo,desaparecendo ao pôr do sol . Assim me encolhi dentro de um velho forno de barro, rente a cozinha de telhado baixo.
- Fi, meu fi, gritava papai.
-tô aqui, pai !
- Vem aqui. Num tem pirigo não, e ucê vai cumigo intê lá.
- intê aonde?!
-intê lá nos cigano, uai! Já cunversei cum eles docê.
   Com meus onze aninhos,  estava na puberdade...um crianço feio, nascido naquele oco de mundo...meio atoleimado.
-  É este aqui o meu fi, ocês já tão sabeno, num quero nenhum tipo de brincadera vorvendo ele e nem muitos melexos cum ele não. Cês pode  arranchá puraí, mas já sabe!
   Qué  vê a sorte? Perguntou-me uma jovem mulher de seios atrevidos,  longos vestidos em cores abrasantes e um enorme par de brincos. Correntes e colares doirados despencavam de seu delicado pescoço. Trazia no sorriso o gostinho de mel  e na loira melena havia presa uma rosa amarela.
Olhei pro papai e ele num sinal de positivo deixou que aquela princesa lesse a minha sorte, quando senti deslizar seus finos e longos dedos,  abotoados de anéis coloridos, pelas finas linhas de minha mão, numa sedosa provocação. Resvalava com rara doçura os seus  olhos pelos tímidos meus. Enrijecí -me, seduzido pelos seus encantos, na maciez de tamanha doçura.
    - Como si chama? Perguntou-me  num hálito silvestre de flores afrodisíacas, transportando-me a um imaginário planeta de efêmeras fantasias.
      Desliguei-me totalmente de meu mundo terreno, e em cada palavra, uma premonição de destinos encantadores.
    Ufa! Era tudo que um menino queria ver e ouvir. Apaixonei-me e várias vezes voltei aquela tenda. Então descobri que muitas coisas que me dizia a minha avó não passavam de lendas. Esses seres, oriundos da India, nômades mercadores da arte, mestres da dança e retiradas furtivas, misteriosos pelos costumes de origens ancestrais, semeadores de sonhos, foram designados a palmilhar destinos e esquadrinhar a vida sob a mira de preconceitos bárbaros. Destarte sobreviventes, não apenas por escolha, mas por rejeição.
   Sigo assim com minhas fantasias de centelhas ciganas, à sorte lida nas linhas das mãos de um menino ainda sonhador, permitindo-me assim na sorte acreditar.

do livro Poeira e Flor vol II









  
 

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