segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MARIA BÊJA FULÔ...em minha pequena aldeia...


   Em minha pequena aldeia, pelas ruas de terra, os pedestres e cavaleiros transitavam lentos e todos se conheciam e se cumprimentavam, mas...ninguém chamava aquela majestosa mulher de Maria, só Maria ou Maria sei lá o que. Chamavam-na de Maria Beja Fulô. Lembro-me bem, quando ainda menino, a molecada se juntava na beira do nosso rio Pardinho e o comentário era sempre referente àquela senhora de rara beleza.Alguns moleques até lhe colocaram outros apelidos como: Maria Safadinha, Maria Kero Kero, mas o que vingou foi Maria Beja Fulô. Depois das aulas a molecada desaparecia como um bando de preás fugindo de cachorros e se enfiando no capinzal a beira do rio Pardinho, só pra encontrar Maria, já com hora marcada. Formava-se assim um verdadeiro bacanal na beira do rio mais limpo do planeta, com praias de areias brancas e moitas de mato em cujas sombras se deitavam. Não era um encontro comum não!...eram em vinte ou trinta deles, formando fila indiana, quando o mais forte, filho de delegado, sempre tinha a vez primeira enquanto os demais, todos pelados, mantinham-se em silêncio e a distância. O mais fraquinho, sempre a reclamar e chorando de vontade, ficava no finalzinho da fila, jamais chegando lá. Os que chegavam atrasados, sabedores de tudo, ficavam espiando, pendurados, como sagüis nos galhos de ingazeiros, se deliciando.
   Tudo aquilo começou com Maria se deitando com um caboclo pescador que mal conseguia se manter com a pesca e andava vadiando por ali. O encontro  dos dois ocorreu numa certa tarde e a molecada a tudo assistiu, camuflada no capinzal. Foi o suficiente para uma chantagem; ou ela aceitava um acordo ou todos se juntariam e contariam tudo pro seu marido! Ela não teve outra opção a não ficar com a primeira proposta, mesmo porque ela já tinha uma tendência maliciosa em judiar da molecada...era bem safadinha.
  Depois de várias horas de total prazer e já quase escuro, todos em festa,voltavam para suas casas. Maria pegava sua enorme bacia de roupas lavadas e corria para sua casa cuidar da "jantinha" pro seu marido  que em frangalhos chegava do serviço de lenhador.
   Na nossa pequena aldeia de Monjolos, ninguém entendia o porquê daquele apelido de Maria Beja Fulô. Os adultos eram loucos para descobrir, mas a molecada não abria mão de seu segredo, pois perderia a boquinha, a mesma que ela usava para enlouquecer os garotos. Soubemos até que ela dava um "banhozinho" em alguns deles por causa da sujeira.
    Eu, no entanto, morava distante além da timidez e ingenuidade, mas sabia das notícias. E mal conhecia Maria e seu marido e algum tempo se passou, quando numa linda manhã de domingo, surgiu na fazenda aquele casal de mãozinhas dadas, sorridente e feliz. Formavam um belo casal, enquanto eu, já um rapazola, estava cheio de amor pra dar. Estavam ali os dois atrás de trabalho e falavam com meu pai. Percebi que Maria me dirigia, com interesse, lampejos desejosos e seu olhar me deixava vermelho de vergonha diante do meu velho pai...um homem severo e duro. Quanto a mim, estava louco, torcendo para que acontecesse aquela contratação e que viessem morar na fazenda, como colonos. Dois dias depois chegava à fazenda aquele casal trazendo a mudança. A cada movimento que eu fazia, percebia aquele olhar de fera faminta querendo me devorar.
    Coisas do acaso ou não...houve um momento em que ficamos a sós. Estava ali, bem ao meu alcance, a mais linda de todas as mulheres que eu conhecera; Maria Beija Flor...
    Prazer em conhecê-la!...

do livro Poeira e Flor.

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