domingo, 29 de julho de 2012

MAMÃE, A BÊNÇÃO....homenagens às mamães


MAMÃE, A BÊNÇÃO!...
    O borralho ainda baforava calor enquanto mamãe lentamente passava o café no coador de pano, encaixado na boca do bule de ferro fundido. Num tosco tição de fogo tentava  acender  seu cigarro de palha. Segura à asa de uma velha caneca de alumínio, sentou -se no fogão de argila ao canto da cozinha e calmamente deixou dentre os lábios trinar os assobios de uma linda canção. Era uma velha canção que lembrava coisas distantes... um tempo que se foi. Seu olhar sereno penetrava nos meus olhos curiosos de menino, tentando me adivinhar os pensamentos ingênuos. Já era anoitecer!... Sua fala macia me encantava quando as suas histórias revelavam os teores de uma vida de duras lutas, de seus ancestrais, de uma bisavó que ela conhecera em vida e que era lendariamente envolvida com reis e príncipes; vetusta alma já em descanso! Mil historias então narrava sem queixumes, e aquilo como um vertedouro no estancamento de suas emoções; tão machucadas pelos dias de caminhadas impiedosas...sofrera muito acompanhando meu pai.
    Era normal que depois de suas prosas vesperais, recolhia-se calada pelos cantos, soltando seus cabelos trigueiros e a murmurar baixinho, versando suas dores.
   Queria eu naquela tarde, pedir para que ela me ensinasse a contar coisas; qualquer coisa, pois sabia eu contar apenas até dez. Eu achava muito complicado essa coisa de contar, mas queria aprender, aprender a contar até mil, pois outras crianças já sabiam contar até duzentos ou mais. Então ela com o mais doce dos sorrisos preso aos lábios, sentou-me no colo e olhando para o céu, começou: você está vendo alguma estrela? – Então!... quando surgir a primeira estrela você grita e assim começaremos a contar, ouviu menino? Muitas surgirão e formarão uma multidão...numa linda dança, só pra “te” encantar e então verá o quanto são belas e como é difícil contá-las!
    E foi assim que ao meu primeiro alerta, ela, mais meiga que uma pluma ao vento, começou a contar, e na medida que timidamente surgiam as estrelas, os números eram ditos ao som gostoso de suas cantilenas, enquanto uma majestosa dança de luzes decorava o céu.
    Assim cresci, aprendendo as primeiras lições de vida...contando centenas de estrelas cintilantes, sentado na doçura de seu colo.
    A bênção mamãe!  
Do livro Poeira e Flor- vol. I

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