segunda-feira, 30 de julho de 2012

A CEIA...não fosse um providencial pormenor...


A  CEIA
     Não fosse um providencial pormenor, aquele dia certamente seria tão igual aos demais dos anos anteriores. As pessoas da família e alguns convidados bem próximos esbanjavam alegria com a troca de presentes-tanto do amigo secreto como do amigo da onça-misturado ao burburinho das crianças, que atentas a tudo, também aguardavam os seus.
    Nós como anfitriões pelo sexto ano, não conseguíamos precisar o tamanho da alegria que envolvia a todos ali na chácara. Era para nós um orgulho muito grande, um encanto, uma magia!
     Os rojões já pipocavam no céu e aquele espetáculo de cores parecia uma tela pintada por Deus, tamanha era sua beleza e vibração!
      Era meia noite e já iniciava o ritual de cumprimentos com desejos de boas festas - muito comum nessa data do ano. De repente me lembrei de uma família que habitava um casebre numa antiga olaria, não muito distante dali, abandonada à sorte por um ex-patrão mal sucedido nos negócios. Aquilo me incomodava!
       Nossa ceia fora colocada sobre uma grande mesa com uma toalha branca, dando o colorido de tanta fartura! Era tanta coisa que, além do desperdício, sobraria muito, como sempre.
        Foi quando, de súbito, peguei uma grande travessa de louça branca no armário e da ceia peguei um pouco de tudo. Cobri com guardanapos de papel e uma rosa vermelha que coloquei sobre a travessa cheia. Tirei da geladeira alguns champanhes e em poucos minutos estava eu buzinando diante daquele casebre. Notei acender uma lamparina e lentamente a porta foi-se abrindo e a escora de mão de pilão colocada ao lado. O forte cheiro de querosene queimando já estava impregnado naquele ambiente.
          O chefe da casa, ao me reconhecer, não entendeu o que eu fazia ali, e tratei de explicar imediatamente. Foi quando o homem girou nos calcanhares e anunciou: Temos visitas! Rapidamente, uma a uma, várias crianças saltavam de um velho colchão estendido por ali a esfregar os olhos, surpresas.
           Após prender os cabelos, a esposa veio ao nosso encontro com uma espécie de toalha para cobrir um caixote, que deduzi ser a mesa de centro.  Depositei ali a travessa cheia de coisas gostosas, naquela mesa improvisada.
           Quando já me preparava para partir, desejando-lhes um “Feliz natal” , seguraram-me pelo braço, pedindo para que eu ficasse mais um pouco com eles.   Não pensei duas vezes e sentando-me ali entre aquela gente de olhos arregalados e brilhantes, estourei um champanhe ainda gelado, brindando em canecos de plástico aquele momento. Aquela era para todos uma ceia que caiu do céu- como deixaram bem claro.
          Para mim,um acontecimento único e de rara felicidade que Deus me proporcionou, deixando na minha memória aquele quadro surreal, com aquela família de olhos brilhantes e emocionados, e em meu ser a certeza de ter tido o mais simples e belo Natal de minha vida.

Do livro Poeira e Flor vol : I

  



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