segunda-feira, 25 de julho de 2011

O CAÇADOR

UM CAUSO DE CAÇADOR.
sem mentiras.

Mamãe estava assustada e de pé ali na varanda a observar, irada, as pastagens diante de seus olhos miúdos. Era mês de agosto e os campos amarelecidos se estendiam pelos vales e campinas abertas. Pontos imagináveis surgiam aos seus olhos nervosos, descobrindo feras que devoravam seus animais de estimação. 

Via onças pintadas na camuflagem dos cipós, via lobos guarás correndo por entre os capinzais, nas ondas provocadas pelo vento forte que vinha do norte, e tantas coisas mais. Não se conformava com o sumiço de tantos perus, galinhas, leitões  e ovelhas recém nascidas que nem rastros deixavam, tal a velocidade dos acontecimentos. Estava enfurecida como se fera também o fosse,  com garras afiadas, pronta para o ataque.

   Mamãe sempre fora uma doçura de mulher, mas naquele instante, cansada de perder seus bichinhos de estimação, quando muitos ela houvera alimentado na mamadeira e agora levados assim por feras! Assim não...ela esbravejava. Estava brava e nos provocando; parece que não tem homem nesta casa! "Os bichos daqui a pouco vão nos devorar à luz do dia e ninguém vai perceber. Estou vendo que vou eu tomar a frente, pegar a espingarda, atrelar os cachorros e sair por essas matas caçando onça, lobos... eu vou acabar virando é homem, proferia aos ventos! Mas mamãe nunca pegou uma arma!...Pensei.

     Eu estava de férias e tudo aquilo ouvindo em meu canto enquanto lia Guimarães. Fazia de conta que não era comigo, só pra alfinetar seus sentimentos e depois brincar com ela. Mas ela falou tanto naquele tal de lobo invisível, que eu acabei acreditando que a coisa estava pior do que ela imaginava.

    Saltei do meu conforto, vesti uma velha calça de brim, pedi a ela  um velho chapéu, a espingarda que disse já estar pronta para o confronto. Disse-me ela com uma fé inabalável: lobo é bicho enfeitiçado e por isso tive que rezar uma oração e pregar cera de jataí na culatra dessa velha espingarda pra não falhar. Coloquei espoleta e muito chumbo grosso aí dentro. Se você tiver boa pontaria pode confiar.  
    Uma velha bota de meu pai eu também calcei. Olhei todo o campo ao redor e mesmo antes de partir ela me disse: pode ser que eu esteja enganada, mas eu vi coisas lá praqueles lados. Era alguma coisa escura passeando pra lá e pra cá no meio do capinzal.

     Eta diacho, pensei! Será que eu caço a danada ou vai ser ela a caçadora?- Muitos anos sem caçar, já havia perdido o  jeito do oficio, mas deixar minha mãe caçar...isso jamais! Já pensou?  A mãe devorada por uma onça e um lobo diante dos olhos assustados de um filho?!

     Conversa mole a parte , lá fui eu com minha cara de zangado...onça tem medo de cara amarrada, de aborrecido com tantas voracidades e pronto pra sujar as calças sem dar o braço a torcer.

     O que diria a minha mamãe querida? Afinal de contas que filho é esse que eu criei com tanto amor e carinho ? Filho que criei com leite gordo e adoçado com rapadura preta do engenho, daqui mesmo! Filho a quem ensinei a contar estrelas nas noites frias de inverno, sem nenhum chumaço de nuvem a atrapalhar nossas vistas. Filho que fiz de tudo pra que fosse um homem de verdade e agora!...

       Eu não podia mijar fora do pinico e nem me agachar.

       E foi assim que diante de seus olhos impetuosos de mãe que eu resolvi incendiar o seu orgulho tão machucado. Tinha que matar ou morrer por uma causa tão nobre e tão minha!  Pois era aquele  o meu momento ou nunca mais; o instante e a oportunidade de eu mostrar pra minha velha quem era seu filho, sem deixar dúvida em seu coração! Então vi latejar em seus olhos centelhas de orgulho; estufei o peito, fiz o sinal da cruz e me enfiei naquele capim dourado. Andei por uma meia hora e parei diante de uma enorme  pedra meio arredondada; era pintada que nem onça e se não fosse tão grande eu já ia meter bala nela, pensando ser a tal onça das grandes.  Olhando com um pouco mais de atenção descobri que do lado daquela enorme pedra havia um buraco...um grande buraco...um enorme buraco. Medo! Ali dentro devia estar bem confortado o “desgranhento” daquele lobo ou mesmo a rabugenta daquela pintada de quem minha mãe tinha ódio mortal. Segurei a respiração, envolvido por um inexplicável silêncio, quando um pequeno roncar me despertou a atenção. Mais acima, bem ao lado da grande pedra e em meio ao capinzal, alguma coisa se moveu. Preparei a espingarda e apontei na direção do trem que mexia. O trem mexia, o mato mexia, o capim mexia... tudo mexia! A espingarda também mexia! Meu coração batia, as pernas tremiam, meus olhos embaçados pareciam cegos ...cegos de pavor e um cagaço de fazer inveja a hipopótamos. 

Ai meu Deus! 

Olhei ao redor, procurando alguma válvula para minha fuga e nada vi e mais uma outra parte do capim atrás de mim também mexeu!... Eta disgreta!... agora fedeu! Não havia ponto para uma fuga no caso de um erro qualquer, não havia!... E havia. E mesmo que tivesse, eu com aquelas pernas tremendo?!...Senti que alguma coisa já escorria pelas pernas abaixo!...pensei na minha mãe...eu voltando pra casa sem ao menos a orelha do bicho!...

Eu levemente fui me encolhendo, tentando ficar menor!..Quem sabe assim eu fico menor e a fera não me vê?  Pensei em tudo: na minha família, na minha mãe, nos amigos, no  dinheiro da caderneta de poupança, na minha amada!...Então de repente uma coragem invadiu meu ser...parecia que o espírito do Zé caçador havia me obsedado. Dei alguns passos a frente e vi os loiros pelos do danado tremulando ao vento. Sua enorme crina reluzia ao sol e o bicho era dos grandes..grandão! Levei a espingarda na sua direção, quando ele levantou a cabeça com aquelas orelhas enormes e cabeludas. Sua boca trazia dentes enormes e era de uma aparência horrenda; dava medo. Olhou-me com cara de mau,  crina eriçada e cauda arrepiada e esticada para trás; eram sinais de ataque. Tremi! Tremi mas não corri...não conseguia correr. Então apontei-lhe a espingarda bem no meio dos dois “zoião”. Ele sentiu a morte em meus olhos e rosnou; sabia que ela havia chegado e que aquele era o seu fim. Não tinha perdão, eu tinha que matá-lo...ou tirar seu couro em vida; fazê-lo sentir a mais dura das dores! Então em voz baixa e rouca eu disse a ele : reze! Reze porque vou mandar você pro inferno. Mas ele nada disse, medindo-me da cabeça aos pés, pronto pro ataque. Era o encontro de duas feras irredutíveis e sagradas, duras, implacáveis...pensei! Tinha que ser ligeiro e levar aquele bicho pra casa e mostrar a todos que eu ainda era aquele caçador famoso. De repente, ele, aquele bicho embrutecido foi suavemente baixando a cauda arrepiada e seus pelos cor de cobre areado foram de leve se assentando sobre o dorso. Suas orelhas murchas para trás, de repente tomaram uma outra posição mais vertical, pedindo paz. Sua enorme boca ferina e carregada de rancor simplesmente se fechou. Seus olhos de pupilas enormes tomaram um aspecto  mais solidário e macios. Baixei um pouco o cano de minha polveira na medida que ele ía naturalmente me desarmando. Então o danado olhou-me bem dentro de meus olhos escuros e lambendo os beiços se encolheu num manso gesto de paz. Balançou a cauda num claro sinal de despedida, desaparecendo por entre os capinzais dourados, deixando-me a sós com meu medo a sorrir. Vi seus pelos bonitos se fundirem com os nossos capins amarelecidos de sol, enquanto eu desarmava com cuidado o cão da velha polveira. Ao chegar em casa fui questionado pela minha saudosa mãe sobre a caçada quando ela me perguntou que fedor era aquele que eu trazia nas calças. Então eu disfarçadamente resolvi conferir a situação da velha espingarda. A danada não tinha pólvora e nem espoleta. 
    Aí sim é que minhas pernas tremeram!...

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