terça-feira, 26 de julho de 2011

O CAÇADOR DE CAPIVARAS.

Zulmira, moça erada, não queria  morrer solteira. Filha única de pais que tinham posse; uma estreita e longa faixa de terra cravada nas abas do rio Pardinho. Terra de cultura, portanto de primeira. Por lá andava caçando um Zé Coió por nome de Modesto que a nossa gente o chamava de Nestim. Era um cabra de pá virada, e matar animais silvestres pra ele era farra. Ligeiro no gatilho, Nestim vivia da caça e em tudo que mexia Nestim atirava; disseram que certa vez até em sua sombra ele disparou a velha espingarda...coisa de doido!...  Seu Pereira, pai de Zulmira conhecia de fama esse caboclinho de fala fanhosa, mas queria conhecê-lo pessoalmente, pois seu Pereira gostava também de uma boa caçada. Era ele do tempo da zagaia; matava onça a beliscões.

Conheceram-se festivamente e seu Pereira se apaixonou pelos seus modos jeitosos de fazer as coisas acontecerem; logo de cara jogou um javali dos brabos no eito onde o velho espreitava em cima de um jirau. Tiro certeiro e a carne foi pra pimenta...aí foi quando Zulmira e Nestim se conheceram para o gozo dos velhos que tanto esperaram por esse momento. Enfim a esperança de um grande casório o que não demorou dois meses.

Nestim, caboclo soberbo não quis os préstimos do sogro e resolveu levar Zulmira lá pro seu ranchinho num poeirento e inútil pedaço de terra improdutivo; mas como ele vivia de caça!...

A vida continuou...um filho, mais outro, mais outro...seis filhos e Zulmira se cansou de tanto comer carne de bicho do mato. Zulmira queria coisa melhor; comer carne de porco, de boi e também de frango. Assim Nestim não gostava, pois não queria saber de outra coisa a não ser suas capivaras, pacas, porco do mato, ouriços!...Até gambá ia pra fritura do Nestim.

Mas os bichos foram minguando, minguando!...Precisava então que Nestim desse um outro jeito de pegá-los. Então começou a escavar os fojos no chão aqui e ali e cobrí-los com "fundo falso"; capim cheiroso e tiririca. Dessa forma quando passasse por ali, o animal cairia de focinho lá nos fundos. 
  Contudo aquilo, Nestim diminuiu sua permanência em casa e vivia pelos matos, afinal um bom caçador!...

Aos fins de tarde, Zulmira saía por ali na catança de lenha, voltando sempre com um enorme feixe nos ombros; era então uma mulher  muito forte, costuda e brava!...

Naquela sexta feira da paixão, resmunguenta, Zulmira as xingas saiu em busca de lenha e não voltou. E 
Nestim? Por onde andava Nestim? No dia seguinte os filhos foram avisar o avô que avisou toda a vizinhança, que veio procurar Zulmira na enorme mata vizinha. Um alvoroço! Suposições! Acusações! Xingamentos.

Depois de dois dias, encontraram Nestim; tava ele lá empoleirado num galho de uma velha e corroída gameleira, tocaiando onça; cochilando.   Cadê Zulmira, Nestim? – Suspeitas!... E o velho nem olhava na cara de Nestim que se espreguiçando,.desceu vagarosamente daquele jirau.

Mais dois dias e alguém ouviu um grito. Uau!...Até que enfim!...Lá estava Zulmira de pernas para o ar dentro de um fojo preparado  por Nestim que quase morreu de rir, mas não se livrando de uma boa surra, dada por Zulmira!...

do livro poeira e flor vol I

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