domingo, 5 de junho de 2011

CAVALO DE PAU

Eram meus, aqueles cavalos de pau e como os adorava. Uma fita vermelha na ponta de um cabo de vassoura era o suficiente para amarrar a minha infância a todas as fantasias, para o resto de minha vida.
Doces disparadas no lombo daqueles corcéis imaginários, camisa aberta, barriga de fora, redemoinhos de ventos e liberdade plena. Tinha sonhos, muitos até! Pés descalços sobre a poeira do tempo e do lugar marcava época, estilo de vida e de espaço. Doce lugar onde tudo era pleno, sem receios e nem metades, sem a dúvida e a mentira, o suposto não havia e a vontade uma fé.
Um certo dia de inverno, no meu aniversário, meu saudoso pai me disse que acabara o meu tempo e em minhas mãos entregou-me uma enxada e um velho chapéu. Completara eu no dia anterior apenas sete anos de vida e na ilusão de que os meus brinquedos me seguiriam pela vida inteira. Assim, não acreditando em suas palavras, por esperar um presente qualquer, fixei no dele o meu olhar silencioso de desafio. Não podia acreditar no que dissera mas acreditei, ciente de que ali acabara minha infância e meus brinquedos; uma separação definitiva e amarga dos mais doces brinquedos de um menino matuto e verdadeiro; meus cavalos de pau. Ao canto, triste e quieta estava minha mãe a me observar e dizer tudo que eu precisava ouvir, mesmo sem dizer uma só palavra. Procurei então  respeitar as ordens de meu pai e procurando entender o porquê de tão prematura e cruel decisão, fui pra roça com os empregados e irmãos. Devíamos muito dinheiro aos bancos e precisávamos pagar ou perdia a fazenda. Assim, agarrado no cabo daquela enxada, sonhava junto a cada movimento, imitar os galopes de meus cavalos de pau, com uma fita vermelha sempre amarrada a mesma, para que eu nunca me soltasse de minhas mais doces e tenras lembranças.

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